Segunda-feira de chuva

Enviado por: Zumbi

Chego no escritório cedo e começo a verificar minhas correspondências.
Droga, minha encomenda ainda não chegou…
Atendo telefonemas e assino alguns documentos.
Tomo um café sem açúcar e mastigo as unhas de sobremesa.
Minha encomenda está demorando muito.
Será que foi entregue no fim de semana?
Pego o telefone e ligo pra portaria:

“Mazinho, eu estou esperando uma encomenda, você sabe se o correio entrega Sedex aqui no sábado?”
“Mas eu não posso garantir que sua encomenda vai chegar no sábado.”
“Eu entendo, Mazinho, mas o que eu quero saber é se é comum que eles passem aqui no sábado pra fazer entregas.”
“Mas eu não trabalho no correio, não posso saber se eles vão trazer sua encomenda no sábado.”
“Não, Mazinho, não é isso! Minha encomenda já deveria ter sido entregue, só que ainda não recebi. Quero saber se o correio deixou o pacote aqui no sábado.”
“Mas eu não tenho como saber, eu não recebi nada…”
“Tá bom, deixa pra lá, vou ficar aguardando, obrigado. Hoje tá difícil, hein?” – e desligo o telefone, puto.
“Como eu posso saber…? Não sou dos correios! Como eu posso saber…?”

O dia vai sendo atropelado pelos afazeres e a cabeça começa a doer ainda antes do almoço.
Engulo dois cream crakers com mais um copo de café sem açúcar e fico preocupado: se minha encomenda não chegar até as três, to frito, terei que desmarcar a reunião com o cliente e vou perder o contrato.
Lá pelo meio da tarde, a úlcera já atacando, fico indignado e começo a ligar nos correios.
Impossível obter qualquer tipo de informação de órgão público, acabo desistindo.
Três horas, desmarco a reunião e começo a me lamentar.
Três e meia recebo uma ligação da portaria:

“Aqui é o Zé, tudo bem com o senhor?”
“Tudo Zé, o que foi dessa vez?”
“Tem aqui na recepção um pacote pro senhor, posso levar?”
“Por favor, até que enfim!”

Recebo o pacote e noto o pelo carimbo que foi entregue no sábado!

“Zé, esse pacote foi entregue no sábado!”
“Foi sim, senhor, eu que recebi…”
“Mas Zé, eu perguntei pro Mazinho se ele tinha recebido algum pacote pra mim no sábado…!”
“Ah, doutor, o Mazinho nem trabalha sábado… tinha que perguntar pro segurança do plantão!”

***

Dilema da Semana de Natal:
Se eu der caixinha de Natal pros porteiros, estou recompensando o serviço ruim!
Se eu não der caixinha de Natal pros porteiros, as encomendas entregues no sábado irão desaparecer!

Solução:
Aluguei um escritório em outro prédio.

***

Meses depois, sou saudado na portaria do novo prédio:

“Oh, doutor, que bom te ver por aqui! Pedi minhas contas no outro prédio e aqui estou nesse novo emprego! O pessoal lá era invocado, mas o senhor é legal. Imagine que fizeram um abaixo-assinado pedindo pro administrador me tirar da portaria? Mas eu finquei o pé e disse que eu nasci porteiro e vou morrer porteiro, é isso que eu sei fazer e é isso que eu vou fazer!!!”
“É, Mazinho, você está certo…”

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A Profecia – 4

Enviado por: Plebeu

Antes, veja aqui

Seus colegas estudavam com afinco para passar nos mais variados concursos públicos. O Espírito do Mal sabia que esse não seria seu caminho; para ficar rico, precisava de um emprego em algum grande escritório de advocacia, um que administrasse milhões! Bilhões! Trilhões! Que influenciasse os rumos da nação!
Formou-se com louvor, a despeito de seu histórico escolar, e imediatamente abiscoitou uma vaga de trainee no departamento jurídico de uma multinacional. Foi muito fácil criar uma aura de competência e credibilidade junto a seus chefes imediatos e logo chamou a atenção do primeiro escalão. Afinal, eram todos farinha do mesmo saco.

Através de manobras escusas, queimou algumas etapas e se tornou chefe de seus ex-chefes. Envolveu-se com contratos de peso, deixando sua marca em negócios variados, como exploração de petróleo off-shore, reconstrução de países destruídos pela ONU e privatização de estatais no terceiro mundo.

Chantageou o pai com segredos antigos e descobertos por acaso e comprou a preço de banana seu bem-localizado apartamento; obrigou os coroas a se mudarem para a casa do irmão mais velho no interior e tornou-se síndico vitalício do prédio, aprovando na surdina uma regulamentação que o permitia construir um clube particular na laje da cobertura.
O clube funcionou como antro de sua restrita alcatéia, da qual o Espírito do Mal era o macho alfa. Cubanos, scotch, poker e meia-luz. O cheiro acre de fumaça e testosterona boiava no ambiente até a noite da terça seguinte, quando era devidamente renovado.

Não obstante sua orientação íntima, casou-se com a Miss Verão de uma cidade satélite. Loura, 19 anos, suburbana, prendas do lar. Para abafar boatos de que fora visto na Lapa de madrugada estacionando para pedir informações a bonecas, engravidou a esposa em uma viagem a Nápolis.

Dizem que quando o filho nasceu, ao levar a tradicional palmada, expeliu vômito e urina vermelha pra todo lado, dando em seguida uma alta gargalhada que deixou os médicos arrepiados. Seus olhos estavam injetados e em seu couro cabeludo podia-se ler: 666.
Mas isso eu não conferi…

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A Profecia – 3

Enviado por: Plebeu

Antes, veja aqui

Não saía com garotas feias, aquilo poderia contaminá-lo. Nos programas noturnos, procurava sair sempre com os amigos mais bonitos e charmosos, pois eles sempre iam conseguir as meninas mais bonitas e charmosas que, invariavelmente, foram à festa com amigas também bonitas e charmosas – e uma dessas iria acabar sendo sua presa!
As mentiras crônicas, outra característica marcante, sempre faziam parecer que as presas eram melhores e mais suculentas do que todos conseguiam realmente enxergar.
Sua eloqüência criava uma nuvem que cegava a platéia; as coisas não eram como pareciam ser e ninguém se dava conta disso. Sofista de primeira grandeza, possuía o dom de convencer.

“Aquela de ontem era meio feiinha, né?”
“Eu não saí com essa que você viu, saí com a outra, de minissaia e salto alto: maravilhosa! Você foi embora cedo com seu amigo, é?”

Apesar de ter sido um aluno medíocre desde o ginasial, conseguiu arrumar empregos nas atividades que menos entendia: foi auxiliar de desenhista em um escritório de arquitetura, sem saber diferenciar um esquadro de uma caneta-tinteiro; trabalhou em um banco de investimentos ajudando no desenvolvimento de fundos de aplicação, mas não entendia para que serviam os juros compostos; deu consultoria sobre hardware em uma loja de informática, mas mal sabia jogar Pac-Man – e ainda comeu dona Luzia, uma senhora de seus 50 anos, esposa do dono da loja (ninguém nunca soube de nada, não viu nada, não pode provar nada). Quando o cadafalso ficou pequeno, foi para a faculdade.

Optou por uma carreira onde pudesse:
- usar ternos para impressionar as louras;
- influenciar muita gente ao mesmo tempo;
- mentir sem ser descoberto;
- ganhar muito dinheiro.

Fez vestibular e passou para o curso de Direito.

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A Profecia – 2

Enviado por: Plebeu

Antes, veja aqui

Na forma de adolescente, continuava a dominar a rapêizi; ainda falava sobre os mesmos assuntos, passando a incluir outros mais atuais e a idear formas de se tornar prefeito de sua própria cidade.
Dedicou-se com afinco a bolar e executar planos mirabolantes e maquiavélicos, tendo que travar batalhas longas e sangrentas com os pais:

“Meu filho é louco! L-O-U-C-O!!!”, desabafava o pai ao telefone a qualquer operador de telemarketing que ligasse tentando vender assinatura de revista.

Brigava com a família e provocava medo ao quebrar o tampo de vidro da mesa da sala. Bebia e pegava o carro escondido para sair com os amigos. Gritava com a avó e fugia de casa. Socava a porta da despensa e chutava a lixeira, amassando tudo em sua fúria insana. Seu quarto, no entanto, era imaculado, totalmente ordenado e limpo, tirando o cheiro de enxofre.
Foi nessa época que desenvolveu a capacidade de voar e de ficar invisível. Conseguia passar por lugares que ninguém mais passava; fugia dos pais diante de seus narizes! Do quarto pra cozinha, da cozinha pro mundo! Conseguia passar por um desafeto no shopping e não ser reconhecido. Escapava das broncas do professor e nunca estava em sala quando havia teste surpresa. Andava de ônibus sem precisar pagar, conseguia lanche grátis no fast-food e depois se gabava da sua audácia e sapiência.

Possuía frustrações sexuais confessadas nos momentos em que simulava fraqueza.

“Enfia”, implorou uma namorada lânguida no banco traseiro de um Chevette 73.
“Tem certeza?”, rebateu o Espírito do Mal, subitamente atacado por uma crise de malária.

Não enfiou; acabou optando por sufocar um homossexualismo latente através de programas com massagistas da região.

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A Profecia – 1

Enviado por: Plebeu

O Espírito do Mal é uma entidade que se manifesta na forma humana em tempos e locais aleatórios.
Conheci o Espírito do Mal quando ele ainda era uma criança, aliás, quando ele ainda tinha forma de criança, pois sua verdadeira idade é desconhecida; suspeita-se que seja milenar.
Acompanhei seu desenvolvimento em um adolescente confiante, logo vindo a se transformar em um adulto obstinado que se camuflava numa profissão de bem e acima de qualquer suspeita; o disfarce perfeito para continuar perpetrando o Mal.

Desde pequeno, gostava de ambientes escuros, filmes de ficção científica e cheiro de urina. Tinha uma cabeça grande e com protuberâncias (proto-chifres?) de forma a acomodar todo seu intelecto e genialidade; seu cérebro devia pesar pelo menos 2,8 kg.
Dominava a gurizada; falava insistentemente e discorria sobre assuntos mórbidos e perigosos, como política, história e geografia. Tinha uma vasta cultura de artigos de jornal e sabia recitar com precisão os nomes dos prefeitos de todas as capitais do mundo (menos dos países da ex-União Soviética).
Saía na porrada com coleguinhas, para subjugá-los intelectual e fisicamente. Sempre ganhava suas lutas, fosse de espada, de empurra-empurra, no grito ou no muque mesmo. Certa vez, assisti um duelo no Jardim da Lacraia onde o Espírito do Mal derrotou um adversário mais velho e mais forte perante um tribunal de formadores de opinião. Saiu dessa enaltecido pela maioria, mas também arranjou bons inimigos.
E torturava. Quando questionado (o que era raro, quase ninguém se atrevia), respondia que era simplesmente porque gostava, achava maneiro.
Sua criatividade infinita o deixava sempre alguns passos à frente dos demais; pena que ele só a utilizava para o Mal.

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Testando…

Som, som…..alou!

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