Carta à coluna – 1

Enviado por: Sevan Dija

Na coluna de hoje vou falar sobre uma carta que recebi de um leitor. Sua mente preocupada me enviou uma subversiva indagação: “depois de quantas passadas de papel no cu a gente já pode vestir a cueca, depois de cagar?” (sic)

Esta indagação me fez ponderar que tais reflexões são quase impossíveis em nossa atual sociedade. Primeiro porque muito se fala, hoje em dia, nas dispersões árabes ocorridas ao redor do mundo; e, segundo, as pessoas se sentem como gafanhotos: verdes e indefesas.

Independentemente das circunstâncias, me voltei à discussão desse assunto tão cotidiano e tão prosaico do ser humano: passar o papel higiênico no cu. É interessante e indispensável pensar no número ideal de passadas antes de sungar a cueca, para que não haja a possibilidade de se ter a ingrata surpresa daquela borrada (ou seria barrada?) ao se retirar a roupa íntima no final do dia. Dependendo da marca do papel, ele se comporta como guardanapo de boteco e mais espalha do que limpa. Porém, mesmo os de boa qualidade insistem em voltar maculados, não importando por quantas vezes o ato se repetiu.

Bom, vou lhe relatar a minha experiência de vida quanto a isso, e pretendo ser direto e claro nesta abordagem: eu não uso papel higiênico, e creio firmemente que este é o segredo para um ânus feliz. Nada de aspereza na vida, afinal ele já é um cu. O que faço é simplesmente lavar o referido com um forte jato d’água logo depois de defecar. E por forte, quero dizer que tal jato tenha pressão suficiente para despregar, principalmente nas situações mais pegajosas, aquelas badalhocas que se recusam a partir; caso a pressão não corresponda às expectativas, você irá se deparar com uma faixa marrom escuro e fedorenta na toalha em que se secar.

Já para o caso em que não exista um esguicho com tal potência, seja do antigo bidet, seja da nova geração de duchas higiênicas, a opção é tomar banho – ou pelo menos ligar o chuveiro e se lavar. A desvantagem desta alternativa é o barulho resultante da água do chuveiro caindo, o que pode ser extremamente constrangedor se você estiver, por exemplo, em um local onde banho não seja uma ação esperada – como na primeira visita à casa dos pais da garota de quem você está gostando. Quando se sai do banheiro, o denunciante odor de fezes frescas predomina e, caso você não tenha a cara-de-pau de dizer “Ahhh! Tomei um banho e me sequei com a camiseta…” e olhar para o futuro sogro com um sorriso cínico, com certeza não terá coragem de confessar que defecou e se limpou no chuveiro, sem banho.

Impossibilitado psicologicamente pela lavagem no chuveiro, só nos resta a pia. Esta peça serve plenamente para o serviço sujo. Nas pontas dos pés, encaixe suavemente a bunda na cuba de modo a não quebrar todo o aparato, senão seria até melhor esparramar o resultado no ventilador. Abra a torneira e com a mão retire o grosso (parte táctil) de sua polpa. Em seguida, de posse do sabonete, lave o vale e reentrâncias. Utilize água em (na) abundância e está quase tudo pronto. Agora só falta retirar os restos de fezes do sabonete e da pia de modo a não deixar vestígios. O arremate fica por conta do cidadão: se for filadaputa, pode secar a bunda na toalha de rosto, senão faça uso da própria cueca mesmo.

Espero tê-lo auxiliado em questão tão íntima.

Abraços,
Sevan Dija
Grande Guru

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Lembranças da infância – 8

Enviado por: Marginal

Como diria o Seu Zé Perneta…

Bati a chave no contato e só escutei um barulho: TOW!
Pensei “isso não é barulho de motor nem aqui nem na China” e empurrei o carro pelo barranco pra banhar no açude.

[E, em seguida, morreu.]

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Lembranças da infância – 7

Enviado por: Marginal

Como diria o C. Neiva, com o dedo em riste…

NEM ISSO!

[E, em seguida, morreu.]

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Lembranças da infância – 6

Enviado por: Marginal

Como diria o Paulo Francis… (esse também dizia muitas coisas!)

Se o Brasil não mudar para melhor até 1998 eu vou ser cabo eleitoral, vou votar no Lula, vou até usar camisa com aquela barbicha elegante que ele tem.

[Morreu em 1997.]

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Lembranças da infância – 5

Enviado por: Marginal

Como diria o Paulo Francis…

Eu fumei maconha duzentas vezes. Toda vez que eu fumava maconha, me dava vontade de ouvir Wagner.

[E, em seguida, morreu.]

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No elevador

Enviado por: Plebeu

Todos daquela família tinham o mesmo problema fisiológico. Ou seria psicológico?

Certo dia, Cozan entrou em um prédio comercial de 42 andares e se dirigiu à fila do elevador que atendia os escritórios mais caros da cidade. Todo engravatado, esperou o elevador logo atrás de uma mulher elegante e com cara de secretária executiva: arrogante e competente. Séria, muito séria.

Em poucos segundos a seta vermelha fez “plim” e acendeu, indicando que deveriam entrar no armário metálico de porta de aço escovado. A fila andou, a suposta secretária entrou, Cozan entrou em seguida. Os passageiros foram apertando os botões de seus andares; a mulher apertou o 40, o mesmo andar para o qual ele ia. A porta automática se fechou e lá se foram eles edifício acima.

Antes do terceiro andar, Cozan sentiu uma incômoda pressão no baixo ventre.

“Preciso me controlar”, pensou.

O elevador parava lentamente em todos os andares e sempre descia alguém. Lá pelo décimo andar, todos já haviam saído, menos Cozan e a secretária. Não agüentando mais, Cozan liberou uma leve flatulência do tipo “fuiiiim”, que escapou deixando uma sensação de calor em sua cueca. Imediatamente percebeu a encrenca: aquele ia feder! Começou a rezar em silêncio, pedindo por um milagre:

- que esse não feda;
- que o elevador suba mais rápido, muito rápido;
- que a mulher não tenha olfato;
- que o cabo do elevador arrebente e a gente se esborrache no poço!

Talvez tenha faltado fé, pois o ambiente enegreceu e a névoa densa e ardida começou a penetrar em suas narinas, causando um tremendo desconforto. A mulher virou o rosto lentamente em sua direção e, pela cara amarrada, tinha claramente deduzido de onde vinha o festival de enxofre.

Desesperado de vergonha e suando frio – e na falta de coisa melhor pra fazer – Cozan apertou o botão 36 e aguardou a parada do elevador. Assim que a porta se abriu, virou-se para a mulher com a cara mais séria que conseguiu fazer e disse:

“Sua porca!”

E pulou pra fora, triunfante.

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Lembranças da infância – 4

Enviado por: Marginal

Como diria o Macbeth…

To−morrow, and to−morrow, and to−morrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow; a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

[E, em seguida, morreu.]

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Sultão

Enviado por: Marginal

Apresentamos David, o melhor cara que havia, pelo menos na opinião dele. Como todo bom gabola, jactava-se de muitas coisas, entre elas de nunca ter recebido um não de uma garota. Conseguiu emprego na rádio da pequena cidade onde morava, apresentando um programa de música pop em inglês, que naquele tempo ainda se chamava iê-iê-iê, e adquirindo certa fama entre as pessoas de sua idade.

As festas de sábado à noite no clube da cidade eram famosas por vários motivos. Primeiro, porque era um evento oportuno para os rapazes se aproximarem das belas e emperiquitadas moças das famílias mais tradicionais e bem sucedidas das redondezas. Segundo, porque sempre saía uma boa briga: a turma dos filhos de fazendeiros acabava medindo forças com a turma dos filhos de comerciantes e a pancadaria era assunto por todas as vilas e arraiais do interior daquele longínquo sertão. Apesar de se dizer boxeador, David nunca era visto nessas brigas, mas sempre contava no dia seguinte que havia socado a cara de vários, tanto fazendeiros quanto comerciantes. No calor dos acontecimentos, ninguém poderia contestá-lo.

Numa dessas festas, ainda antes da briga, David notou que uma menina linda e rica, filha de um imigrante abastado que tinha lojas na rua principal, estava sentada à uma mesa, sozinha. Como a grana andava curta, tirou-a imediatamente para dançar, antes que tivesse que oferecer uma bebida e, ao acabar a música, fingiu que ia sair e comprar cigarros. Voltou quando a seleção de músicas foi reiniciada e ficaram se divertindo e conversando em voz alta por mais de uma hora.

Com a garota bem fisgada, David se viu em apuros: estava sem carro e não podia fazer feio, depois de todas as vantagens que havia contado. Felizmente, ao longo do papo, descobriu que ela estava com o carro da loja e conseguiu reverter sua desvantagem:

“Não fica bem para uma dama ir sozinha para casa. Como você está de carro, eu vou com você e deixo a chave do meu carro com um amigo aqui na festa.”

Ela, encantada com o locutor de voz macia, concordou prontamente. Ele, querendo impressionar a burguesa e faturar alto, levou-a ao estacionamento pelo braço. Ao fazer menção de abrir a porta de passageiro para ela (e assim assumir a direção), ela falou:

“Não, bobinho, eu te deixo em casa.”

Agora ferrou! Ela não iria levá-lo pra casa dela, não teriam uma noite romântica juntos e, pior ainda, David seria desmascarado, pois morava em um casebre vagabundo na periferia da cidade, muito diferente do palacete que ele descrevera durante seus românticos papos de sedução.

“Onde você mora, benzinho?”

Rápido, David, pense rápido. Apontou vagamente com a mão:

“É pra lá…”

A moça tomou o rumo da avenida central e David se limitava a dizer:

“Mais pra lá…”

De repente David avistou uma bela casa de dois andares nos altos da avenida, toda iluminada e com grades altas e pontiagudas cercando um gramado bem cuidado.

“Pode parar, chegamos!”, completou, radiante.

Após um beijinho de boa noite e muitas promessas para os próximos encontros, David saiu do carro e ficou em pé, na frente do portão. Nisso aparece um enorme cachorro rottweiler, latindo e babando, correndo em direção ao portão. David gelou. A moça, de dentro do carro, parecia disposta a esperar até que ele estivesse dentro de casa antes de ir embora, logo não lhe sobrou muita escolha: David respirou fundo e colocou a mão no fecho do portão. Sua amada, toda sorrisos, acenou:

“Entra, benzinho.”

David engoliu em seco: o bicharoco continuava lá, bufando e gritando. Fazendo a voz mais grossa que o normal, foi entrando pelo portão:

“Calma, Sultão, sou eu Sultão! Sultão, calma, Sultão…”

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Faxineiro

Enviado por: Marginal

Encontrei Scott no banheiro do colégio, fumando um baseado e matando aula. Ficamos tocando rock com instrumentos imaginários: eu fazia a guitarra, ele fazia a bateria, ambos balançando a cabeça no ritmo do clássico Smoke on the Water:

“Pa-pa-pan, pa-pa-paran, pa-pa-pan, pa-paran!”

De repente, entra o faxineiro e começa a cantar, imitando a voz grossa do Coverdale:

“We all came out to Montreux on a lake near the shoreline…”

Apesar de surpresos com a canja inesperada, ficamos curtindo nosso Deep Purple até que, bem na hora do solo, o inspetor enfia a cabeça pra dentro do banheiro e esbraveja:

“Que bagunça é essa aí?”

“Você não ia entender…”, respondeu o faxineiro, jogando um balde d’água no chão e começando a esfregar.

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Supermacacanderson

Enviado por: Kramer

Era uma vez um menino de seus, digamos, oito anos, carinhosamente apelidado de Supermacacanderson.

As maiores virtudes de nosso herói eram:
- apesar das maldades que faziam contra ele, nunca chorava;
- subia em árvores de todos os tipos, corria por muros altos e finos, varava portões de grades (daí a alcunha);
- era audaz: provocava os maiores e apanhava; tornava a provocar e tornava a apanhar (e nem por isso chorava);
- caía (ou era derrubado) dos muros e árvores em que subia e não chorava;
- já mencionei que ele nunca chorava?

Essas características atiçavam a curiosidade mórbida de um legítimo jackass: quando, afinal, veríamos o Supermacacanderson chorar? O que deveria ser feito para assistirmos a este episódio raro e espetacular da vida humana, quando todos nos nivelamos aos demais? O perseguido choro era um daqueles momentos como o nascer, o morrer e o obrar, uma situação típica e inevitável, fatídica e indomável.

Numa tarde de terça-feira, meio entediado com o mormaço seco, entretido com meus afazeres artísticos na escrivaninha do segundo andar, notei o Supermacacanderson procurando encrenca.

“Vem cá, pivete!”

Ele foi ao meu encontro.

“Dá o dedo aqui!”

Ele espichou a mão esquerda com a palma virada para cima. Peguei seu indicador e polegar com uma das mãos e, com a outra, espremi uma porção generosa de superbonder entre eles. Rapidamente, apertei seu indicador de encontro ao polegar e segurei por alguns segundos. Quando ele percebeu do que se tratava a nova brincadeira, já era tarde. Soltei sua mão e observei, radiante, sua expressão ao tentar inutilmente separar os dedos!

Devo admitir que foi delicioso assisti-lo descer as escadas correndo de encontro à mãe, que pachorramente foi providenciar um pouco de água quente para desfazer a arte.

Não, ele não chorou dessa vez. Mas foi escaldado e perdeu a impressão digital do indicador esquerdo. Droga, eu devia ter feito com sua mão direita…

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