Sultão

Enviado por: Marginal

Apresentamos David, o melhor cara que havia, pelo menos na opinião dele. Como todo bom gabola, jactava-se de muitas coisas, entre elas de nunca ter recebido um não de uma garota. Conseguiu emprego na rádio da pequena cidade onde morava, apresentando um programa de música pop em inglês, que naquele tempo ainda se chamava iê-iê-iê, e adquirindo certa fama entre as pessoas de sua idade.

As festas de sábado à noite no clube da cidade eram famosas por vários motivos. Primeiro, porque era um evento oportuno para os rapazes se aproximarem das belas e emperiquitadas moças das famílias mais tradicionais e bem sucedidas das redondezas. Segundo, porque sempre saía uma boa briga: a turma dos filhos de fazendeiros acabava medindo forças com a turma dos filhos de comerciantes e a pancadaria era assunto por todas as vilas e arraiais do interior daquele longínquo sertão. Apesar de se dizer boxeador, David nunca era visto nessas brigas, mas sempre contava no dia seguinte que havia socado a cara de vários, tanto fazendeiros quanto comerciantes. No calor dos acontecimentos, ninguém poderia contestá-lo.

Numa dessas festas, ainda antes da briga, David notou que uma menina linda e rica, filha de um imigrante abastado que tinha lojas na rua principal, estava sentada à uma mesa, sozinha. Como a grana andava curta, tirou-a imediatamente para dançar, antes que tivesse que oferecer uma bebida e, ao acabar a música, fingiu que ia sair e comprar cigarros. Voltou quando a seleção de músicas foi reiniciada e ficaram se divertindo e conversando em voz alta por mais de uma hora.

Com a garota bem fisgada, David se viu em apuros: estava sem carro e não podia fazer feio, depois de todas as vantagens que havia contado. Felizmente, ao longo do papo, descobriu que ela estava com o carro da loja e conseguiu reverter sua desvantagem:

“Não fica bem para uma dama ir sozinha para casa. Como você está de carro, eu vou com você e deixo a chave do meu carro com um amigo aqui na festa.”

Ela, encantada com o locutor de voz macia, concordou prontamente. Ele, querendo impressionar a burguesa e faturar alto, levou-a ao estacionamento pelo braço. Ao fazer menção de abrir a porta de passageiro para ela (e assim assumir a direção), ela falou:

“Não, bobinho, eu te deixo em casa.”

Agora ferrou! Ela não iria levá-lo pra casa dela, não teriam uma noite romântica juntos e, pior ainda, David seria desmascarado, pois morava em um casebre vagabundo na periferia da cidade, muito diferente do palacete que ele descrevera durante seus românticos papos de sedução.

“Onde você mora, benzinho?”

Rápido, David, pense rápido. Apontou vagamente com a mão:

“É pra lá…”

A moça tomou o rumo da avenida central e David se limitava a dizer:

“Mais pra lá…”

De repente David avistou uma bela casa de dois andares nos altos da avenida, toda iluminada e com grades altas e pontiagudas cercando um gramado bem cuidado.

“Pode parar, chegamos!”, completou, radiante.

Após um beijinho de boa noite e muitas promessas para os próximos encontros, David saiu do carro e ficou em pé, na frente do portão. Nisso aparece um enorme cachorro rottweiler, latindo e babando, correndo em direção ao portão. David gelou. A moça, de dentro do carro, parecia disposta a esperar até que ele estivesse dentro de casa antes de ir embora, logo não lhe sobrou muita escolha: David respirou fundo e colocou a mão no fecho do portão. Sua amada, toda sorrisos, acenou:

“Entra, benzinho.”

David engoliu em seco: o bicharoco continuava lá, bufando e gritando. Fazendo a voz mais grossa que o normal, foi entrando pelo portão:

“Calma, Sultão, sou eu Sultão! Sultão, calma, Sultão…”

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One Response to Sultão

  1. vocessabequem says:

    esse tá podre uma hora dessas

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