Enviado por: Kramer
Era uma vez um menino de seus, digamos, oito anos, carinhosamente apelidado de Supermacacanderson.
As maiores virtudes de nosso herói eram:
- apesar das maldades que faziam contra ele, nunca chorava;
- subia em árvores de todos os tipos, corria por muros altos e finos, varava portões de grades (daí a alcunha);
- era audaz: provocava os maiores e apanhava; tornava a provocar e tornava a apanhar (e nem por isso chorava);
- caía (ou era derrubado) dos muros e árvores em que subia e não chorava;
- já mencionei que ele nunca chorava?
Essas características atiçavam a curiosidade mórbida de um legítimo jackass: quando, afinal, veríamos o Supermacacanderson chorar? O que deveria ser feito para assistirmos a este episódio raro e espetacular da vida humana, quando todos nos nivelamos aos demais? O perseguido choro era um daqueles momentos como o nascer, o morrer e o obrar, uma situação típica e inevitável, fatídica e indomável.
Numa tarde de terça-feira, meio entediado com o mormaço seco, entretido com meus afazeres artísticos na escrivaninha do segundo andar, notei o Supermacacanderson procurando encrenca.
“Vem cá, pivete!”
Ele foi ao meu encontro.
“Dá o dedo aqui!”
Ele espichou a mão esquerda com a palma virada para cima. Peguei seu indicador e polegar com uma das mãos e, com a outra, espremi uma porção generosa de superbonder entre eles. Rapidamente, apertei seu indicador de encontro ao polegar e segurei por alguns segundos. Quando ele percebeu do que se tratava a nova brincadeira, já era tarde. Soltei sua mão e observei, radiante, sua expressão ao tentar inutilmente separar os dedos!
Devo admitir que foi delicioso assisti-lo descer as escadas correndo de encontro à mãe, que pachorramente foi providenciar um pouco de água quente para desfazer a arte.
Não, ele não chorou dessa vez. Mas foi escaldado e perdeu a impressão digital do indicador esquerdo. Droga, eu devia ter feito com sua mão direita…