Enviado por: Felpudo
Cabeça era indeciso, impreciso e inocente. Nada disso teria relevância se não tivesse os amigos que têm. Os amigos são feitos no caminho da vida e meandros mais prolixos, inesperados, como aquela pedrada na frente da escola ou a falta desleal no futebol de rua. As grandes amizades são geralmente feitas na infância onde as características pessoais são mais evidentes e os defeitos mais caricaturais. As crianças não possuem máscaras e nem a malícia, por isso são mais verdadeiras. Cabeça era indeciso, impreciso e inocente e ainda tinha o crânio do tamanho da coxa, e talvez por esta razão ganhou uma alcunha que ofuscou seu nome de batismo. A ironia dos coleginhas e o tom satírico que o chamavam era a mais profunda prova de amor. Se você quer saber se uma amizade é verdadeira veja o quanto um pode sacanear com o outro. A liberdade e a ausência de fronteiras é o que faz duas pessoas, apesar de seus defeitos, se darem bem.
Contudo, Cabeça era o predileto alvo de piadas e qualquer coisa que fizesse nunca era à altura do que recebia. O garoto era importunado por todos e sempre com ações simultâneas. O objetivo do grupo era sempre vê-lo louco, em uma espécie de projeção do herói Hulk, que ao ficar nervoso se transformava. O menino não ficava verde, mas quando saía do sério era algo de chamar atenção, sua força dobrava, e correr do colérico Cabeça simplesmente representava o melhor passatempo. As provocações seguiam sempre de maneira incessante e sem respeitar hora e local. O destino de Cabeça era ser o espírito de libertação do ódio no mundo, a certeza de que se você não aceita algo, pode extravazar-se. Cabeça, embora o mais gozado, com certeza naquela infância inesquecível para todos foi o mais admirado. Afinal todos queriam ser Cabeça.
Porém na última quarta ninguém quis ser mais o ídolo. Ao ir em uma casa de divertimento ilícito masculino noturno, o agora adulto Cabeça, realizou um ato que nem seus amigos conseguiram fazer piada. O jovem após não passar em um concurso, resolveu chamar seus amigos para ir desafogar as mágoas e escolheu um puteiro (termo menos eufemesidado do que no parágrafo anterior para o mesmo local). Os amigos embora compromissados aceitaram a proposta por consideração e culpa por todas as sátiras e brincadeiras de infância. Quando juntos todos eram crianças e Cabeça era Cabeça.
Ao sair do local, Cabeça resolveu pagar a conta com cartão de crédito. Nada de anormal até aí, se o cartão não fosse de sua mãe. Quase saindo do LDIMN (local de divertimento ilícito masculino noturno), o jovem percebeu e ficou louco por isso. Há anos que ninguém o via assim e na situação mais inesperada, ou seja, em um meandro da vida lá estava a transformação do pacato cabeça no super herói colérico da turma. Todos saíram correndo e rindo de Cabeça que queria matar todo mundo em virtude de sua noite de desafogamento ter ido por água abaixo. Sua inocência e imprecisão o levaram a cometer um erro homérico. Quando chegou em casa a história do cartão foi aberta para a mãe que ficou boquiaberta e sem palavras. Cabeça na indecisão de como se explicar, bolou a desculpa mais esfarrapada para o ocorrido. Culpou seus dois amigos de terem, sem intenção, trocado as carteiras e utilizar o cartão no local. A decepção materna não agüentaria saber que seu filho além de todos os defeitos ainda ia em puteiros. Os amigos pagaram pelo pecado, inocência, imprecisão e indecisão de Cabeça. Afinal, amizades são maiores até do que amor de mãe, pois estão acima dos defeitos, e firmes em qualquer situação. Nada é mais glorioso que ser amigo de Cabeça e vê-lo ficar louco.