Estranho – 1

Enviado por: Mrs. Parker

Entrei na estação de Grand Army Plaza. Ainda era hora do rush, o que significa que havia fila nas máquinas de auto-atendimento, a estação estava cheia e os vagões idem. Esperei pacientemente por meu trem, que demorou ainda alguns instantes, enquanto eu tentava espantar o sono com o resto do gosto de café que me sobrava na boca.

Meu trem chegou, entrei e tive a grata surpresa de perceber que não estava tão cheio como os outros que tinha observado até então. Apesar de existirem alguns poucos assentos vagos em meu vagão, várias pessoas estavam em pé, próximas às portas, numa falsa expectativa de descer na próxima parada; na verdade, elas estavam distraídas e com medo de perderem o ponto, portanto ficavam em posições estratégicas para conseguirem ler o nome de cada estação quando o trem parava.

Um cara falava em voz alta, quase gritando, aquela lengalenga que já estava acostumada a ouvir nos sistemas de transporte coletivo das grandes cidades:

“Ladies and gentlema’, I’m unemployed and homeless. I’m not stealin’ you, I’m not robbin’ you, just askin’ for your contribution so I can…”

Me acomodei em pé mesmo; no banco em minha frente estavam duas moças que levavam casacos volumosos, guarda-chuvas compridos e resistentes e algumas bolsas cheias de cacarecos. Achei estranho, pois a previsão era de tempo bom e temperaturas altas.

Algumas estações depois, uma das moças da minha frente juntou seus apetrechos anti-chuva e saiu do trem, deixando vago o assento ao lado da amiga. Gentilmente, ofereci o assento à senhora que estava em pé ao meu lado, segurando como podia no alto cabideiro:

“Você quer sentar?”

Nem percebi que falei em português! Deve ser o sono… O mais estranho é que a senhora entendeu (talvez pelo gesto que fiz enquanto falei), se sentou e agradeceu em inglês, como tinha que ser.

Continuamos a jornada pelos labirintos subterrâneos e ouvindo o pedinte, agora insatisfeito com o resultado obtido com sua postura “passiva”, indo de banco em banco contar a ladainha que precisava de alguma grana, não estava assaltando, etc.

Nisso, o camarada puxa uma cadernetinha surrada do bolso e volta a circular pelo vagão, indo de banco em banco, pra pedir uma caneta emprestada, já que ele tinha coisas a escrever e a caneta dele tinha acabado a carga. Importunou um, outro, uma senhora que lia um jornal, um executivo de terno e, de todos, recebia a mesma negativa.

Meio de saco cheio daquilo tudo e, pra ver se conseguia acabar com a amolação, uma moça com fone de ouvido finalmente resolveu emprestar-lhe uma caneta. O pedinte agradeceu muitíssimo, sempre em voz alta, e sentou-se em um banco próximo para escrever. Pensei: esse cara não vai escrever porra nenhuma, ele está apenas querendo atenção, dinheiro ou ambos.

Ele ainda perguntou para a moça em que estação ela iria descer e, diante da resposta, informou:

“I’m gettin’ off on 148, but you got nothin’ to worry, I’ll get you pen back befo’ you station!”

A dona da caneta apenas fez um sinal com a mão, como quem diz: deixa pra lá.

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One Response to Estranho – 1

  1. Barata says:

    Boa história… um relato raro das suas incursões longe do “baby-core”… boa história.
    Uma coisa me intriga, quem será a 3° pessoa em visitação neste momento…?

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