Enviado por: Mrs. Parker
Antes, veja aqui
Deixei os pensamentos divagarem enquanto o trem guinchava e fazia seu percurso, embalada no agradável sacolejar. Observei os pés do cara do outro lado, provavelmente de ascendência indiana (ou árabe?): chinelos, unhas compridas e sujas; isso me chamou a atenção e imediatamente resolvi comparar com os pés da moça de cabelo alisado à esquerda: sandálias e unhas pintadas de azul.
Como que tomada por uma curiosidade repentina, comecei a olhar para os pés de todos que consegui alcançar no vagão! Vi uma latina com pés imundos em tamancos altos e unhas vermelhas; uma senhora de idade com duas crianças, que pareciam ter voltado de um parque, a não ser por estarem carregando um notebook novinho embrulhado, tinham as três os pés pretos de sujeira (!) e as unhas pintadas de cores variadas. Um velho quase careca estranhamente usava terno, gravata e… chinelos! Mas nada me tira da cabeça que em sua valise estava camuflado um belo par de sapatos sociais.
Continuei absorta nessa estranha investigação e vi orientais de tamancos, universitários de tênis imundos e sem cadarços, até que vi um cara de tênis de cano alto, com cadarços muito longos amarrados na calça legging, criando uma aparência contrastante. Os tênis eram de cor laranja e, apesar do cano longo e de estarem amarrados à calça, deixavam aparecer um pouco de sua fina canela.
Era o nosso amigo pedinte! Fiquei observando-o de rabo de olho para não ser notada: tudo que eu não queria era mais um maluco cismando com a minha cara! Ele era mulato, baixinho e magérrimo. Com os tênis estranhos e a calça legging, parecia ainda mais baixo e magro! Usava uma jaqueta leve, velha e desbotada, sem nada por baixo, e um boné grande cravado na cabeça até a linha das sobrancelhas. Após uma olhada mais minuciosa, percebi que tinha uma camiseta enrolada na cabeça, por baixo do enorme boné, escondendo as orelhas. Devia ser para ajudar a equilibrar o boné, que era nitidamente alguns números maior que o necessário.
Quando olhei para suas mãos, impressionante!, notei que realmente havia escrito várias linhas de texto em sua caderneta! Morri de curiosidade para saber sobre o que seria aquele texto longo, mas me contive. Estava até engraçado, pois o início do texto havia sido escrito com caneta azul e todas as últimas linhas foram escritas com a caneta de tinta preta que ele pegou emprestada da moça com fone de ouvido. A letra parecia ser bonita, embora miúda como ele.
O trem pára e entram duas meninas; o único lugar vazio desta ponta do vagão é ao lado da estranha figura, agora transformada em escritor. Uma das meninas se senta, enquanto a outra fica de pé, logo à frente. O escritor, com sua peculiar voz alta, oferece o lugar pra menina que havia ficado em pé e, sem esperar qualquer resposta ou reação, se desloca para o outro lado do vagão onde havia mais um assento vazio. De lá, aos berros, avisa a moça de fone de ouvido que, embora ele tenha trocado de lugar, ainda estava no vagão e iria devolver a caneta dela. Ela mal acenou e continuou a olhar para o nada.
Li nas placas da estação seguinte que já era a minha vez de descer, estávamos na 42. Saí do trem junto com uma multidão e logo estava na rua. Começava a garoar. Meu sono havia acabado e fiquei recordando os últimos eventos no metrô enquanto andava para o trabalho. Tudo aqui é muito diferente, mas vou me acostumando. Será que ele vai devolver a caneta para a dona? O que será que ele tanto escrevia naquela caderneta? Enfim, não se pode achar nada estranho nesta cidade: estranhos somos nós.